Anderson AC
Pintura
- Participação
- Artista
- Na feira
- Obras à venda, com preço informado no local
- Ateliê aberto
- dia e horário a definir
- @anderson___ac
Biografia
Anderson AC
Salvador, BA - 1979
Vive e trabalha em Salvador.
Formado em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, participou de mostras coletivas significativas como a II Trienal de Luanda (2010), Brasil Futuro – As Formas da Democracia (2023,Salvador), Dos Brasis (2024) e, dentre as mostras individuais principais da sua carreira, destacam-se O Diário de bordo ou o livro dos Dias, realizada na galeria do Conselho da Europa (Estrasburgo, França 2016), Pintura Muralista (São Paulo, 2019) realizada no Museu Afro Brasil; além da mostra Alvorada (Salvador, 2022), na Paulo Darzé Galeria de Arte.
Anderson participou de residências artísticas na Fundação Sindika Dokolo, Luanda Angola, Waza Center Art, Lumbumbashi RD Congo, Noubi do ta em Cotonou, Benin (à convite do Sertão Negro), além do Conseil d’Europe, Estrasburgo, e no MAM Bahia. Desde 2015, mantém parte do seu espaço de trabalho no bairro do Beiru, antigo quilombo urbano em Salvador, onde criou em 2021 a Pinacoteca do Beiru, um espaço de compartilhamento de processos artísticos aberto à comunidade.
Segundo Emanuel Araujo, criador do Museu Afro Brasil, “Anderson AC é um artista baiano proeminente com uma potente produção marcada pela pintura grossa e expressionista que se relaciona com a produção de murais urbanos e com a consciência sobre as contradições de um mundo cheio de diferenças sociais e estranhezas religiosas”.
Declaração do artista
Meu processo de produção artística se desenvolve na relação entre obra, memória e território, compreendendo a criação não apenas como uma prática individual, mas como um campo de encontros, vínculos e transformações. A pintura, a fotografia, os arquivos familiares, os objetos e as histórias que atravessam minha trajetória constituem matérias de investigação por meio das quais procuro estabelecer relações entre experiências pessoais, memórias coletivas e contextos históricos e sociais. Nesse percurso, a pesquisa artística ultrapassa os limites do ateliê e se expande para as relações que constituem o bairro do Beiru, em Salvador, e para a criação da Pinacoteca do Beiru como espaço de produção, circulação, preservação e compartilhamento de arte e conhecimento.
A partir de 2015, com a instalação de meu ateliê no Beiru, iniciou-se um processo de aproximação com os moradores que, progressivamente, transformou o espaço de criação em um lugar de encontro e participação. Essa experiência contribuiu para a instituição da Pinacoteca do Beiru, compreendida não apenas como um espaço expositivo, mas como uma construção cultural vinculada às relações estabelecidas no bairro. Nesse contexto, a arte deixa de ser entendida exclusivamente como objeto produzido e apresentado por um artista e passa a envolver também os processos de convivência, escuta, formação, colaboração e reconhecimento das experiências locais.
A série E o Sol é para Todos? constitui um momento significativo dessa investigação. Ao produzir pinturas e retratos relacionados aos moradores do Beiru, busco estabelecer uma relação entre a imagem artística e as pessoas que participam da construção cotidiana do território. Os moradores não aparecem apenas como temas ou representações de uma realidade exterior à obra: suas presenças, histórias e relações integram um processo no qual a produção artística se aproxima da experiência social e da construção de uma memória compartilhada. A série coloca em questão o acesso à visibilidade, o direito à representação e as condições pelas quais determinadas pessoas, histórias e territórios passam a ocupar o campo da arte.
A pergunta que atravessa o título E o Sol é para Todos? amplia-se, assim, para além da representação individual. Ela interroga as condições de participação, reconhecimento e pertencimento, considerando quem tem acesso aos espaços de produção cultural, quem pode construir as imagens de um lugar e quais experiências são reconhecidas como parte de sua história. Ao relacionar pintura, retrato e convivência, a série contribui para pensar a Pinacoteca do Beiru como uma instituição que se constitui também por meio dos vínculos que estabelece com os moradores e com as formas de vida que atravessam o bairro.
Minha pesquisa material se desenvolve por meio da pintura, da fotografia, dos rasgos, cortes, retalhos, costuras, sobreposições e entrelaçamentos. Trabalho especialmente com telas de algodão cru, compreendendo a passagem da terra ao algodão, da fibra ao fio, do fio ao tecido e do tecido à tela como uma cadeia material carregada de histórias, relações de trabalho, exploração, transmissão de conhecimentos e transformação. Rasgar, fragmentar e costurar são operações que atravessam tanto a construção das obras quanto minha maneira de investigar as relações entre memória, história e território. A recomposição não significa restaurar uma unidade perdida, mas criar novas configurações a partir de fragmentos que preservam as marcas de suas trajetórias.
Essa investigação se expande em Tessituras da Alvorada e Tessituras Territoriais. Na primeira, a superfície pictórica torna-se um campo de elaboração de experiências, ausências, permanências e possibilidades de transformação. Na segunda, as operações de rasgar, retalhar, recompor e entrelaçar passam a dialogar diretamente com as relações sociais, as memórias e as visualidades que constituem um território. A tessitura deixa de ser apenas um procedimento material para se tornar uma maneira de pensar como pessoas, imagens, histórias, objetos e espaços se relacionam, produzindo sentidos que não existiam isoladamente.
A própria instituição da Pinacoteca do Beiru pode ser compreendida nessa perspectiva: como uma tessitura construída ao longo do tempo, a partir da relação entre a prática artística, a presença no bairro, a participação dos moradores e a criação de um espaço dedicado à arte. Sua constituição não se resume à ocupação física de um lugar ou à atribuição de uma função museológica, mas envolve a construção gradual de vínculos, práticas, memórias e possibilidades de participação cultural. Nesse processo, o território não é apenas cenário ou tema das obras; ele participa da produção artística e institucional, transformando os sentidos da criação, da exposição, da formação e da preservação.
Interessa-me investigar como essas relações se estabelecem e como podem produzir outras formas de reconhecimento. O Beiru é compreendido como um espaço vivido, atravessado por histórias, saberes, conflitos, afetos, deslocamentos e formas de resistência. Suas visualidades não se limitam às imagens produzidas sobre o bairro por agentes externos: elas também emergem das experiências de seus moradores, de suas memórias, de suas práticas cotidianas e de suas maneiras de ocupar e transformar os espaços. A Pinacoteca torna-se, nesse sentido, um lugar de encontro entre diferentes formas de produzir e compartilhar imagens, sem reduzir a diversidade do território a uma narrativa única.
Minha prática artística e minha pesquisa institucional convergem, portanto, na investigação das relações entre criação, representação e participação. Ao produzir pinturas, desenvolver séries, organizar exposições e contribuir para a construção da Pinacoteca, procuro aproximar a experiência estética das condições concretas em que a arte é produzida, reconhecida e compartilhada. Essa aproximação também implica questionar os mecanismos de legitimação cultural e ampliar as possibilidades de participação de pessoas e territórios historicamente afastados dos circuitos institucionais da arte.
Produzir, para mim, é criar relações: entre matéria e memória, obra e experiência, artista e comunidade, espaço expositivo e território. É reconhecer que uma imagem nunca está inteiramente isolada das condições que possibilitaram sua existência e que uma instituição cultural também se constrói pelas relações que consegue estabelecer e sustentar. Entre as pinturas dos moradores, as telas rasgadas e recompostas, as histórias compartilhadas e as práticas desenvolvidas na Pinacoteca do Beiru, busco construir tessituras capazes de transformar fragmentos em novas possibilidades de encontro, pertencimento e visualidade.
Ficha técnica
1 - Anderson Ac.2025, Pai Rufino do Beiru. Acrilica sobre tela 70x50cm.
2 - Anderson Ac 2025, Iyá Minha Gal. Acrilica sobre tela 70x50cm.
3 - Anderson Ac 2025, Dr.Lauro. Acrilica sobre tela 70x50cm.